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Terça-feira, Novembro 30, 2004
Crítica via internet estremece jornalismo de TV nos EUA
O jornal da noite, formato televisivo no qual Dan Rather trabalhou e cresceu por 40 anos, está na lista das espécies em perigo de extinção desde que teve início a ascensão dos canais de jornalismo a cabo 24 horas, na década de 1980.
Mas não foi a pressão competitiva que levou Rather a abrir mão de seu cargo altamente valorizado de âncora do "Evening News" da CBS. O que aconteceu é que a CBS vem sendo pressionada em função de uma das matérias de Rather -um furo quente, em ano eleitoral, sobre o serviço militar prestado por George W. Bush na Guarda Nacional na época da Guerra do Vietnã.
Veio à tona que os documentos sobre os quais a CBS baseou sua matéria eram questionáveis, o que obrigou a rede e Dan Rather a se desculparem. Um relatório independente encomendado pela CBS deve ficar pronto daqui a semanas, e a previsão é que não mostre nem Rather nem seu produtor sob uma ótica favorável.
O episódio pode ser visto como mais um em uma série de escândalos envolvendo a reportagem de notícias, que vem prejudicando ou acabando com carreiras de profissionais no "New York Times", no "USA Today" e na BBC. O que talvez seja mais importante, porém, é a demonstração das novas e fortes pressões que vêm sendo exercidas sobre as redes de TV abertas, além das reações às vezes desajeitadas destas.
De acordo com Walter Isaacson, ex-presidente da CNN e atual executivo-chefe do Instituto Aspen, uma organização de pesquisas, a grande imprensa vem enfrentando pressões sem precedentes vindas de grupos políticos que hoje podem expressar seu desagrado com a programação através de e-mails em massa e blogs.
"Estamos assistindo a muito mais ataques ideológicos e manifestações de desagrado de setores específicos sendo lançados contra as organizações da grande imprensa", disse Isaacson. "A internet cria canais de expressão para as queixas das pessoas, o que significa que coisas que antes eram ignoradas hoje exigem explicações públicas ou pedidos de desculpas [por parte da imprensa]."
No caso da matéria sobre Bush e a Guarda Nacional apresentada por Dan Rather, alguns autores de blogs contestaram seu conteúdo e acabaram se tornando parte integrante da história. Eles analisaram as fontes usadas nos documentos da Guarda Nacional e constataram que, aparentemente, haviam sido feitas com um computador, e não com uma máquina de escrever dos anos 1970. Presume-se que a investigação independente vá determinar se as alegações dos bloggers têm fundamento. Se tiverem, os bloggers terão cumprido uma função importante de vigilância.
Segundo alguns críticos, contudo, as redes de TV, acovardadas pela intensa campanha movida pela Comissão Federal de Comunicações (CFC) contra a "programação indecente", também vêm mostrando uma tendência preocupante de render-se diante de pressões intensas em torno de questões menos importantes.
Nos últimos tempos, as grandes redes vêm emitindo confissões quase semanais de culpa, algumas delas suscitadas por campanhas travadas por grupos como a Associação da Família Americana e o Conselho de Pais e Televisão.
A ABC, rede pertencente à Disney, foi criticada por exibir uma versão sem cortes de "O Resgate do Soldado Ryan", filme de guerra estrelado por Tom Hanks, no Dia dos Veteranos. A rede também pediu desculpas por uma promoção na qual uma atriz tirava uma toalha enrolada ao corpo e pulava nos braços de um atleta. A cena não tinha nudez, mas a CFC diz que vai investigar o caso.
Mais difícil de entender foi o recente pedido de desculpas da CBS por ter interrompido seu programa de maior audiência para anunciar a notícia da morte de Iasser Arafat. Anteriormente, ela havia tomado a decisão de não exibir um drama sobre o presidente Ronald Reagan que foi criticado por setores conservadores.
"As redes não cessam de encontrar-se em posições vulneráveis", diz Robert Thompson, professor de cultura popular na Universidade Syracuse. "A batalha contra o conteúdo das grandes redes está sendo travada em todas as frentes -nos programas jornalísticos e nos de entretenimento."
A solução, diz Thompson, é que as redes fixem seus próprios critérios e se atenham a eles. Enquanto não o fizerem, elas não vão conseguir acumular boa vontade suficiente do público para poderem resistir a críticas, mesmo as mais superficiais.
Para os críticos de Dan Rather, que há muito tempo é alvo de setores conservadores, a matéria sobre a Guarda Nacional veio apenas reforçar sua visão de que Rather tinha um viés liberal.
Depois que deixar o cargo de âncora, em março, Rather vai continuar a trabalhar para a CBS, como correspondente no programa "60 Minutes", mas ele pode ter certeza de que os bloggers vão acompanhar com atenção máxima cada palavra que ele disser.
Como talvez dissesse o próprio Rather, que é texano, essa vigilância minuciosa tem deixado as redes de TV tão assustadas quanto porcos numa fábrica de presunto.
Autor; Christopher Grimes (DO 'FINANCIAL TIMES') com tradução de Clara Allain
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/ft2811200404.htm
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.: Publicado em TextosDigitais às
23:17
TV barra obrigação de exibir independentes
Redes brasileiras, que produzem quase tudo o que vai ao ar, derrubam artigo de lei que abria espaço a produtoras
As TVs abertas conseguiram: o novo texto da Ancinav (Agência Nacional do Cinema e do Audiovisual), que deverá ser divulgado nesta semana, não mais as obriga a firmar anualmente um compromisso público, intermediado pelo governo federal, de exibir programas e filmes nacionais de produtoras independentes.
O artigo, derrubado pelas redes, constava do projeto de lei de criação da Ancinav negociada com o setor e colocada em consulta pública. A intenção do Ministério da Cultura, no qual a agência é desenvolvida, era fazer com que as emissoras abrissem espaço para produções de fora, a fim de "oxigenar" a programação e fomentar o mercado audiovisual do país. No Brasil, as TVs produzem praticamente tudo o que levam ao ar, diferentemente do que ocorre nos EUA e em países da Europa.
Até o ano passado, as redes norte-americanas eram obrigadas por lei a produzir apenas 30% da programação e comprar o restante de outras empresas (a regra foi flexibilizada em 2003). Com isso, passaram a concentrar esforços no jornalismo. As famosas séries e "reality shows" costumam ser fornecidos às TVs por produtoras.
Apesar de uma recente abertura brasileira a independentes, acelerada pela crise financeira na TV, os exemplos ainda são raros, como a série "Cidade dos Homens", desenvolvida para a Globo pela O2, do cineasta Fernando Meirelles ("Cidade de Deus"), o seriado "Turma do Gueto" e a novela "Metamorphoses", comprados pela Record da Casablanca.
Marco Altberg, presidente da Associação Brasileira de Produtoras Independentes de TV, diz que o espaço às produtoras ainda é "irrisório". "A TV aberta é fechada.
Independentemente de lei, iremos nos reunir com as redes para mostrar os benefícios dessa parceria, que pode tornar os custos mais baixos dos que a produção interna", diz ele, que é favorável à Ancinav e a uma lei que obrigue as TVs a abrir a programação.
Orlando Senna, secretário do Audiovisual do Ministério da Cultura, critica o fato de a relação entre as TVs abertas comercias e as produtoras independentes ser "mínima".
"As redes deveriam perceber que têm um compromisso social. Mais espaço à produção independente poderia trazer oxigenação dos conteúdos, melhoria de qualidade e maior chance de representação da variedade da sociedade brasileira."
Obrigatório x opcional
Em troca do compromisso público previsto na minuta anterior da Ancinav, a nova trará desconto progressivo da Condecine (Contribuição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica) para os canais que exibirem independentes em mais de 20% da programação. O que antes tinha caráter de obrigatoriedade, passou a ser opcional: quem comprar programa paga menos taxa pelos feitos "em casa"; quem não comprar arca com o imposto integral.
O valor da taxa deverá ser de R$ 700 por obra. Uma novela, por exemplo, tem em torno de 200 capítulos. Se a Globo continuar produzindo quase tudo o que veicula, gastará perto de R$ 140 mil por uma trama inteira. Dois dados relevantes para avaliar quanto isso representaria para a emissora: cada capítulo tem um custo aproximado de R$ 200 mil e um único merchandising na trama das oito chega a render R$ 400 mil.
Lobby
O MinC deve divulgar o texto da Ancinav amanhã ou terça no www.cultura.org.br . O documento será discutido no dia 9 pelo Conselho Superior de Cinema, formado por nove ministérios (entre eles Casa Civil, Cultura e Fazenda) e representantes do setor. Em seguida, passará por apreciação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e será encaminhado ao Congresso. Apesar da mudança em relação à produção independente, entre outras alterações, as TVs não estão satisfeitas com os termos e planejam tentar convencer deputados a derrubá-los.
Na semana passada, a Abert (associação de emissoras brasileiras) e outras entidades da indústria cinematográfica lançaram o Fórum pelo Desenvolvimento do Audiovisual e do Cinema (FAC), contrário à Ancinav. Coordenador-geral, o cineasta Roberto Farias, que nega que o FAC tenha sido criado em razão da agência, critica a tentativa de impor às TVs uma abertura à produção independente.
Diretor da TV Globo, ele afirmou à Folha que "a demanda por conteúdo audiovisual é crescente no mundo, e a tendência é que as TVs busquem parcerias". "Não achamos necessário criar uma obrigatoriedade." Ele disse que o espaço aberto pelas redes brasileiras ainda é "insipiente, mas deverá crescer, principalmente com a chegada da TV digital [que pode ampliar o número de canais]".
A Abert, que das grandes redes representa a Globo, concorda. "A sociedade brasileira aprendeu o que é ser livre. Não serão regras feitas em gabinetes por alienígenas ao setor que vão resolver alguma coisa. Nosso modelo é o da livre iniciativa, que oferece espaço a quem tem condição de produzir com qualidade, numa melhor relação custo/benefício", disse José Pizani, presidente da associação.
Record, Band e SBT e Rede TV! têm posição semelhante, apesar de a Abra, associação que as representa, não ter se pronunciado sobre o assunto. Presidente da Band e da entidade, Johnny Saad declarou, em entrevista publicada pela Folha na semana passada, que a Ancinav "é ruim e feia".
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2811200412.htm
Autora: Laura Mattos
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23:16
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